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domingo, 1 de dezembro de 2013

O Ferro-velho mais o Só Um dente



Não há muito mais a dizer sobre os bisas Caréus.
Trapeiro que me anunciei, terei, todavia, para concluir, de continuar a falar de trapos.

Antes, deixem-me, ligar o som dos ferros-velhos, dois ou três transeuntes irregulares, colectando, na saca de linhagem, desperdícios, pelas azinhagas da Portela. Ouçam:

É o ferro-velho!
Há pr’àí ferro velho queiram vender?
Peles de coelho?
Trapo?
 Metal?
Chumbo…?
Cera ou lã
Sarro!

Não garanto crédito à ordem dos elementos do pregão, conquanto assegure, com as mãos no lume, que “Cera ou lã” se ouvia –ciròlâ; sarro merecia um apelo à parte.

A passagem do ferro-velho gerava expectativa. Permitia a retirada condigna de materiais e objectos em fim de vida, sem o que ficariam inúteis pelos desvãos dos casais. Se as searas consumiam em estrume a maioria dos biodegradáveis, havia outros que tinham de ser afastados daquele meio. Agora falam todos de compostagem! Olha-me para eles… Se tivessem visto o esterco das fossas, trazido em carros de bois das lixeiras municipais, teriam mais cuidado ao tratar de tais modernices. «Faça uma horta na varanda, aprenda a fabricar o seu próprio composto.» Use correctamente o ecoponto; vá, não pergunte o que ganha com isso. Não ganha você, ganham os que lhe aprazaram estas urbanizações.
Como eu admirava aquele regenerador: o velho ferro-velho. Sim, reparei: repito  a palavra velho. No dia em que começaram a voar, entre carrascos e oliveiras, sacos de plástico, anunciou-se o fim deste agente social.

Trapo? Roupa usada, não ia normalmente parar à saca do ferro-velho. Refazia-se em casa – por pudor de se entregar a costureira ou alfaiate – a menos que a qualidade do tecido e a confecção da peça sucedânea o justificassem. Ou guardava-se para remendos – fundilhos, joelheiras, punhos e colarinhos, palmilhas…. Em último caso, aproveitava-se para mantas.

Vem isto a propósito de outro passante dos casais da Besteira: o tecelão do Arneiro das Milhariças. Metia aos córregos da azinhaga, em Vale de Lobos, com um burro alforgeado com obra acabada; no regresso, carregando trouxas ou sacas de matéria-prima. Andava a maior parte do dia visitando fregueses pelos arredores. Recolhendo tiras de roupas velhas. Rasgadas ao serão de Inverno. Voltava semanas mais tarde, com a encomenda, devidamente prensada no tear. Designávamo-lo por alcunha, ou nunca se lhe reteve o nome ou isso não pesava nas relações estabelecidas. Criatura completamente desdentada, mas a quem sobressaía, sobre o maxilar inferior, uma risonha raiz de incisivo. Era o Só-um-dente.
Solavancava-se tranquilo, sentado, à mulher, em cadeirinha, sobre albarda e alforges….Não permitia o bojo da carga que burricasse escarranchado.

O ferro-velho, o tecelão do Arneiro das Milhariças. Ecologistas, muito antes da palavra ter sido usada. Ai não, não pedantizo com uma de avant la lettre, mas por que não gente pr’à frentex?

E é dentro desta cultura da poupança – tanto ela nos ensinaria na crise dos nossos dias – que eu me vejo, pelos dez anos, na posse de uma samarra, talhada do varino do nosso bisavô Caréu.
Conforme já dito, andara tal abafo pelas costas do meu pai. Primeiro, por empréstimo; dele se apropriando por morte do proprietário. Agasalhara-o ainda em Pernes e nas gélidas noites dos primeiros anos de taxista.
Depois, depois de fervido num caldeiro, enxuto a preceito e aberto pelas costuras, foram os panos do varino levados ao Adriano Mendes ou ao Pedro, alfaiates, da Portela. Qual deles meteu naquilo tesoura para dali me acatitar a primeira samarra. Peça que me durou entre os dez e os doze anos. Quando, acanhadota nas mangas, passou ao meu irmão.

Vejo-me, no braço direito,  por algumas semanas, com o  fumo, do luto da nossa bisa Júlia. Rasgo negro, sobre lã cor-de-camelo. Quatro utilizadores, a bem contar! E, em fim de linha, foi a samarra desfeita em tiras e levado pelo Só-um-dente ?

Com as derivas, sinto-me obrigado a deixar para a próxima o outro trapo.

3 comentários:

  1. Lembro-me bem dos ferros-velhos da minha infância. Com essa mesma lengalenga, saca às costas e aquele ar de homem do saco que aterrorizava os petizes.
    Sem dúvida que, naquela época, o involuntário espírito ecológico, permitia uma reciclagem genuína.

    A minha mãe contava que, numa visita que o nosso tio Manuel, ainda muito jovem, fez aos seus, ela e a tia Lucinda tinham feito uma direta, para voltarem o casaco do irmão e do velho fazer novo, já que o rapaz andava lá para longe e havia que aproveitar a curta estadia para o atilar. Tudo se remendava, se transformava, se aproveitava.
    Eu também tenho esse espírito. Tenho dia estipulado para dar pontos aos desmazelos. Amiúde dizem-me que não compensa o tempo e a linha gasta, mas como já não há por aqui tear para onde mandar as bolas de tiras de tecidos, eu remendo. Reciclar é comigo.

    Não sabia que a bisa Júlia tinha morrido já no teu tempo. Eu até pensava que ela não tinha conhecido nenhum bisneto. Como era ela? Assim como a avó Otília já velhota?

    Obrigado Quim, por me teres apresentado o Só-um-dente. E que venham outros trapos.
    Beijinhos

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  2. Era isso mesmo. Os trapos seguiam enrolados em bola na sacas do Só-Um-Dente. Até na memõria se me está a reduzir a vista, ou o enfoque das coisas.
    Quanto à bisa Júlia, sim, lembro-me . De três ou quatro encontros, não mais. Um deles no Entroncamento, outro na tarde em que ouvi o meu pai repetir-lhe a tragédia do Galego.
    Acabando os trapos dos Caréus, logo passarei aos Hipólitos, com uma breve paragem no trisa Emídio, o "Serpa Pinto". Da Póvoa, mas contemporâneo do de CInfães.
    Obrigado pelo comentário.
    Beijinhos
    Q

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  3. Não poupes o Serpa Pinto, Quim. Já quando falaste dele lá no outro lado, fiquei assim meio inebriada com esse tri. Tão pobre me sinto por nada saber.
    Aguardo, calmamente.
    Bjs

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