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sábado, 12 de setembro de 2026

Um Livro ao Fundos da Escada


Misericórdia. Mercês. Quatro-Caminhos…

 Sigo por este!

Casa decrépita, monte de livros abandonados, ao fundo da escada. Órfãos de leitura. Por compaixão, o passante revolveu… 

Logo ouviu gritos:

- Chapitô ! Chapitô! Chapitô!...

 Quem vive!? Apeteceu-lhe dar de troco:

«…. e cabriola , rebola, pega fogo à multidão…»

Mas? Não seria aquilo! Escorregava-lhe a memória, de Guilherme de Azevedo para José Régio. E agora?

Teria de procurar nos versos do outro, de um palhaço coxo, seu conterrâneo à distância de séculos:

«Correi , subi, voai, num turbilhão

fantástico

por entre as saudações 

da turba que festeja o semideus 

elástico

nas grandes ascensões.»


Agora sim. A farsa continua.

Remexendo no monte de livros, caiu-lhe aquele. Só poderia vir dali o grito: «Chapitô! » 

Ah é? Pois, vou levar-te comigo. Aqui ainda te lançam à guilhotina. À fogueira…Para serve nos nossos dias um livro abandonado? - digam-me lá.

2

Eis então, Estimadas  e Estimado  Vizinhos do Livro, o que eu vos trago, levantado da calçada. O nosso próximo…desafio. Um palhaço!

Adriano, Quinito… Emiliano…

 Emiliano e um riso trágico de quem tem a filha no velório e vem ali ao circo, animar o delírio de tantas meninas e meninos. Está na hora, é o teu número! Contem as lágrimas.

E nisto…

Opina o nosso Augusto que a única guerra legítima é a do palhaço-rico com o seu confrade pobre…

 «… Surpresa, Mamã, em nossa casa, eu já vi uns sapatões iguais aos do palhaço Vira-Vento. Mamã, Mamã, ele também mora na nossa casa?»

Ficou Marta sem resposta…

- … um palhaço é uma pessoa, não é um espantalho no ervilhal, acho eu. – dirá a Vizinha C…

Nem um D. Roberto, um saltimbanco… Não precisa de coroa, basta-lhe o nariz vermelho. E logo lhe chamam doutor… Rei dos Circo…

-  Os palhaços são humildes! - acrescentou alguém do nosso Grupo.

- … também tenho palhaços ao fundo da memória. De quando levava os meninos, da família onde estava a servir, ao Coliseu. No inverno. Riam, riam, riam e, quando chegavam a casa,diziam aos pais que quem tinha rido mais tinha sido eu, a Maria!...

Hoje aqui não há   máscaras nem carrancas; e mais, não queremos ter aqui carrancudos.

Há um livro à nossa frente.

Notas:

Este texto Não seria possível, sem o contributo de Lídia, Natalina, Celeste Rodrigues, Augusto…

Pretende ser a apresentação da segunda série dos Encontros de Leitura que, no passado  realizámos, com gosto e determinação durante alguns anos.

 


Escriba desgovernado

 Escriba desgovernado. 

Sem bússola.

Visitam me na madrugada suburbana entre chilros de merlos e plangências de rouxinol, as figuras de outros escribas. Tristemente sentados a porta das repartições públicas. À espera. Que algum iletrado a eles recorresse. . No preenchimento de um impresso, na solicitacão de um direito. Como testemunhas de ato a registar.

Humildes reformados , iludidos proprietários de todo o tempo do mundo.

 Prestada a ajuda, acompanhavam o requerente até ao manga de alpaca. Findo o despacho, guardavam no discreto surro do bolso, a gorjeta. "Tudo em conformidade!"

Escriba desgovernado. Ainda aqui estou...

2. ++++++++++++++++++++


Varanda de roupa pendurada

E um poema do Régio que atrapalha passo e memória nas escadinhas ....

Pois era. 

Foi ali atrás uma livraria multigeracional. Agora? Tens lá a marca de sapatorros para atravesares o Deserto: DakarShoes! 


E toma que vais almoçar à Praça da Figueira, se não escorregares no empedrado. Segurança Máxima, bandeira publicitária nas janelas do terceiro, no prédio em frente. Por baixo...

foi a Papelaria Fernandes, que muito esperneou até.à sua conversão em comedouro turístico. 

Livros e papéis levam a sua conta nesta Lísbia desalmada. 


Mas não falemos hoje de books , meu... Nem das livrarias que Deus tem.

Quantas?

 Estende a mão , conta:

Clássica Editora, nos Restauradores...

Pede licença aos turistas e entra no Rossio. 

Lembras das livrarias do Diário de Notícias? E a d'' O Século? 

Da primeira fizeram um mercado de panos, hoje havia um letreiro anunciante de boa nova remessa de toalhas a kilo.

A segunda irá seguramente ampliar o café do lado..


Sobe ao Chiado e ri do que eram a Lello e a Portugal. Havia ali empregados que tudo faziam para servir a cultura. Foram emudecendo, á medida do afastamento dos clientes. Um dia despacharam-nos para o Desemprego


..



Foi pela roupa pendurada, além nas águas-furtadas, lá em riba. Não te iludas, com a breve prova de vida que aquilo é, nesta aridez de almas depenadas.

Quem ali ali ficou, por não ter outro poiso, tem de trepar por escadório escuro e apodrecido. Passar diante de portas onde, desde há muito, ninguém assiste. Consola-se e enlouquece por nunca ouvir berreiros nem latidos. Nem sobe-e-desce de colchões no quarto de cs. 

Há andares vagos na vertical do prédio. Morreram. Foram quartos, salas, cozinhas, corredores e correrias de criança; hoje são mofo e silêncio...


Quem tem de pernoitar lá em cima vive na solidão do telemóvel... Talvez ainda na do 


Sala de espera


Aguarde na sala d'espera! rosnou o Segurança

Venho pedir alvíssaras à médica de família. Alvíssaras de tempo.

Aguardo junto de crianças alegres de enfado 

Ainda falta muito?

 E pais impacientes 

Cala- te! Não vês que 'tou ao telemóvel.

Caso único: pai e filho jogam à sardinha

Para esconder o tempo.

Voz da parede chama para a consulta.

E nós mãe?

E eu? Quando chegará a minha vez?



 **********

"Talvez o passado seja somente uma bela cicatriz.

Ondjaki 

quarta-feira, 10 de janeiro de 2024

 Avisos ao jardineiro


Que nunca lhe cortasse um pé de flor

 Ficassem abertas na valsa das estações  

Até ao fim do tempo  

E não chamasse murchas às pétalas fanadas 

das retirantes rosas  

Nem delas  indagasse o destino

RM 10 .O1.2024

sexta-feira, 21 de abril de 2023

 


Que bicho é este, minha gente?

Sim, há uma ciclovia, Quim Borgas ! A uma dúzia de metros dos olhos do fotógrafo... 

E agora?!

Olhemos para ver, sem que "fake news" ou "fake views" nos toldem os sentidos . Que em tempos de Guerra, ainda mais nos podem enganar.  Aquilo é objeto voador, fora de dúvidas.  Drone, roquete, ogiva nuclear... Ainda não! Gato preto, pássaro gigante ou discreta traça de armário.... também não parece.


Aquilo entrou no autocarro, pousou primeiro no decotado pescoço de uma passageira, safou-se de sacudidelas aflitas, deu voz de agoiro a uma brasileira assustadiça ( "Sinal di morte, né? ..."), pousou no vidro da janela...

O fotógrafo estava lá, a uns centímetros. 

Indiferente aquilo saiu, na paragem seguinte, perdendo-se no azul de mar e céu.

No regresso da Praia Grande , onde se pode ir por aquela recente e eleitoral ciclopedonovia.

Quando o 1254 da Carris chegou a Sintra, já ninguém se lembrava da 🦋!

Que até talvez já nem viva fosse .

Bom dia para todos os meus amigos 

 


sábado, 15 de abril de 2023


I

 A sombra no muro 

Na clareza da cal

Abrindo a manhã 

Procura a sombra 

O repouso final

Com as dormideiras

Pétalas...

Indiferente ao outro

Lado do muro

Rio de Mouro, 15 abril 2023

II

Papoilas vadias

Desta vez, o fotógrafo não estava lá! Garantidamente . 

Assim ele respondeu, quando uma das amigas alertou para a possível confusão entre uma papoila bravia e um narciso .

Já a outra amiga deu de barato no muro,  branco e ameaçado pelo matagal da rua.

Para enaltecer a resiliência das últimas papoilas urbanas :

Afirmam-se no matagal primaveril do desleixo autárquico. Competindo com o volteio dos plásticos e o abandono dos excrementos caninos.  São heróicas!

Heroínas! Arriscaria inquieto o fotógrafo.

Sabe que os cantoneiros vão aparecer com a guilhotina de nylon .

Só não sabe  e dia e hora.  Isso ninguém sabe !...




quarta-feira, 15 de março de 2023

TELEFONAR AOS ANJOS

 

 


«Que falta aqui me faz …» 

Minha mãe aludia a uma ausência. Geralmente de pessoa ou animal – gato, cão… –, dada a sua frugalidade quanto à posse de objetos. Só os necessários. Não havia, não eram precisos...

Exceto… o telefone! Só haveria um lá por casa, uns vinte anos mais tarde.

Contavam-se pelos dedos das mãos de um maneta as casas que se podiam dar a tal luxo, em toda a Portela. Nas nossas proximidades, e numa urgência, a Quinta dos Anjos não recusava o uso do aparelho. Porém andasse o Diabo ao largo.

***

Primavera de 1949.

 Sentado na cadeira de bunho, a um canto da cozinha, olhos nos reflexos das chamas nos azulejos da chaminé.. Ordem de ficar ali quieto, calado, até que a minha mãe, de costas para mim, junto à chaminé, acabasse de dar comida ao meu irmão. Nós, jantaríamos depois de ele adormecer.

Hora inquietante. Já o Sol baixara  para lá do Cabeço, afundando-se atrás da Quinta dos Anjos. Rondavam as trevas enoveladas no olival do Cerrado.

 «Mãe, o que é aquilo?» Era o noitibó a exigir: 

“Morre! Morre! Morre!...”

 Horrível voz da noite.

Medo! Medo de estarmos ali sozinhos entre sombras e latidos de cães. Pior, quando a minha mãe deixava escapar o lamento:

 «Por onde andará o teu pai a esta hora?»

Por onde?

Alegria, se regressasse antes de eu me deitar. 

Normal era bater à janela, para lá da meia-noite, depois do serviço aos últimos comboios. Chofer de praça. Saía de manhã, com a cesta do almoço… e do jantar. 

«Só se veja quem só de deseja!» 

Ouvi muita vez à minha mãe. 

Dava tal premissa matéria para um estudo sobre a Solidão, considerei mais tarde.

 

Não suporto mais a prisão da cadeira de bunho. Levanto-me para fechar a porta do corredor, donde a luz do candeeiro a petróleo já não consegue limpar o escuro. 

Aproximo-me do meu irmão, no intuito de lhe acariciar os caracóis, mas sou afastado. Devia deixar o menino tranquilo, parecia  que  não estava bem. Alcançasse antes o púcaro da água, esquecido por minha mãe no poial das bilhas. Ficasse depois ali ao lado deles, à mesa de pinho. Com juízo.

O grito!

Meu irmão roxo, esticava-se no colo da mãe...

Logo aquietou, para começar a empalidecer. 

Mais gritos. Minha mãe corre para a rua com o menino nos braços. Pede socorro na  noite, virando-se para os lados donde esta pudesse vir. 

Que eu gritasse também! Acudam! Acudam!

Quem nos ouviria?

Rompeu da escuridão a voz da Ilda, saltou o Mário o muro que, então, separava os nossos dois quintais. Duplicavam-se os gritos, chegavam pessoas de mais longe. O Filipe Sapateiro e a Clarisse, a Ângela e o Herculano Salsa.

O menino ia morrer!

Desmaiado. Trouxessem da cozinha um pano molhado para lhe pôr na testa!

Ouve-se a Ilda, por cima do meu berreiro. Que o irmão fosse telefonar aos Anjos!

Valeria a pena?

Já o Mário corre esbaforido pela ladeira do Cabeço, uma mão no guiador, outra no selim, empurrando a bicicleta. Mal chegue ao cimo pode montar-se e pedalar, ao longo do outeiro, até cruzar a estrada nova, descer à Quinta dos Anjos. 

Chegará alguém a tempo de salvar o meu irmão?

[…]

Filipe Sapateiro, que até ali, não abrira a boca e discreto se retirara para junto do nosso portão, anunciou sonora e tranquilamente: «Vem aí o Mário!»

Descia veloz, com o farolim da bicicleta a rasgar pelo carreiro íngreme. Dera conta do recado.

Entretanto o meu irmão arribara, ouviam-se-lhe uns gemidos fracos. Que fazer?

Por sorte, o meu pai estava na praça, falou com o Mário e não ia tardar. Ainda bem que o menino já não estava desmaiado. «Graças a Deus», acrescentou alguém.

Então, pegassem um momento na criança, enquanto a minha mãe ia libertar-se do avental e enfiar um casaco.

Aí, voltei a pensar em mim. A quem me deixariam entregue? Também queria ir com o meu irmão!!!

Chegou o meu pai. Que alívio!

Ofereceu-se o Herculano para me  levar a casa da minha avó Gertrudes e dar conta do sucedido. Meu pai concordou e agradeceu.

Caminhávamos de mão dada pela Azinhaga da Besteira.

 «E agora, ti’ Reclano? Ele vai morrer?» 

Voltara-me o choro.

Nem pensar, mal chegassem ao hospital, davam-lhe uma injeção, ficaria logo bom.

A resposta não me tranquilizou. Lembrei-me da saída de um caixão branco de casa dos Salsas. Uma menina bebé? Já não tenho a certeza.

 «Mas há pessoas que morrem, quando  voltam do hospital…»

Herculano apertou-me a mão. Que me calasse. Continuámos em silêncio. Até que : 

«Esta noite a Morte não faz ronda!»

Acalmei um pouco,  mesmo sem entender a frase do meu

 companheiro.

***

E agora, feitas as contas, onde é que diabo meti o meu telefone? 

Por mais que  prometa dar um sítio certo às coisas, ando sempre a perder-lhe o norte.

«Tens de arranjar um telefone para cada bolso» sugere-me o meu irmão, quando lhe relato estes esquecimento de velho..

Talvez tenha razão. Mas para que nos serve um telefone em cada bolso? 

Se não se cuidar do saldo, da bateria…

E, sobretudo, da alma das palavras!

 

O original deste texto foi redigido em 2011. Retomei-o hoje, e não me perguntem porquê.

14 de marco de 2023

domingo, 5 de março de 2023

ESCREVIVÊNCIAS 24 Mágoas Açoriana


 

Do vaivém de cartas -fantásticas fingidas mentirosas - cruzadas sobre o Atlântico, entre os Anjos e a Terceira. Pelas mãos da menina Né e de sua antiga criada e amiga, Helena. Discreta e respeitosa tentativa de leitura.

Por que havia a Menina de lhe pedir ajuda, querendo reviver o  dia do casamento? Passados que estavam nove anos. Continuaria a sentir-se bem nos Açores? Tudo a correr de acordo com os seus desejos? 

Helena mudando de assunto: gostariam muito, ela e os demais do pessoal, de saber se a Menina tencionava vir à festa de Nossa Senhora? Tornou apenas um talvez, sem se compreender se sim se não. Melhor seria, não contar. Estava tão longe, que pena!

Festa na Quinta, em 1950. Hoje já ninguém pode informar sobre presença da menina Né, embora também não se certifique o contrário. No entanto, na memória do povo ficou um reflexo: o filho, o menino Efe. Foi visto e achado em quase todas as actividades festivas, parecia que os familiares se disputavam para lhe fazer companhia. 

Tinha oito anos. Teria viajado com o pai. Se a irmã, Isa, um ano mais nova, não é mencionada, nos festejos, é de admitir que tivesse ficado com a mãe, nos Açores.

Pouco depois, o menino regressou à Terceira. E testemunhou.

***

Não se realizavam desde 1930, as festividades em honra de Nossa Senhora dos Anjos. Né e Helena, em plena mocidade, encantaram-se com a chegada das fogaceiras, ao adro da Capela, por isso ficaram muitos anos a repetir que iriam participar no próximo cortejo. Cada uma com a sua fogaça à cabeça, se o Papá autorizasse, está claro.

Correu o tempo, levou o ânimo do povo,   deixou-lhe  medo. Veio a sombra das guerras, e os festeiros baralharam-se nas intenções. Em 1950, ora! Já não calhavam tais desejos de folia.

***

Nas primeiras cartas dos Açores, Né relatava a Helena como decorriam por lá as festas do Espírito Santo. Estabelecia paralelos: as fogaças da Senhora dos Anjos equivaliam às sopas dos impérios ilhéus. Pão para os pobres.

Agora, Helena apreensiva, a menina Né referia-se à outra função. “Lena, ajuda-me a reviver aquele dia”, lia-se numa das cartas. “O dia do casamento.” Aliás, dos casamentos. Pedia também que lhe esmiuçasse os preparativos das bodas. Tudo. Por exemplo, como se chamavam as divertidas raparigas e mulheres da Portela que, durante semanas, bordaram os enxovais , o dela e o da mana? Na cabeça de Né, subsistia apenas um nome: “Maria dos Anjos… Irmã de um rapaz moço de compras, um tal Eugénio.”

As bodas das duas filhas dos senhores da Quinta. Levadas ao altar, pelo braço do Papá, naquela quinta-feira, véspera de Santo António, de 1941… Ai! Ai! 

Então não foi a uma quarta-feira, 9 de Julho? Era isto que se esvaía na mente da Menina? Aquele dia tão importante? Como se podia acreditar? Por certo que Helena saberia apontar quase todas as coisas dessa altura. De tal maneira foram vividas com alegria pelas pessoas da Quinta, patrões e trabalhadores.

Todos radiantes. Os fatos, os vestidos, as jóias, penteados, chapéus… os fardamentos novos de criados e serviçais. Nem pensar em dizer quem tinham sido os inúmeros convidados, só se atreveria indicar os próximos da família. 

Mais: a acrescentar que houve gente da Portela, afoita na devassa das estremas da Quinta, com o fito de espreitar de longe as noivinhas. Quedaram-se meio escondidos, entre mato, edifícios e carros. Fez vista grossa, quem se apercebeu daquela coscuvilhice. Coitados! Era por bem.

Muitos, não tiveram a sorte de entrever as manas, não puderam comparar-lhes o bom gosto dos vestidos, contudo regressaram jurando que iam lindas. Outros, ficaram-se pela contagem dos automóveis. Intrigados: afinal, para os ricos, não estava a gasolina racionada.

Plena Guerra, lá por fora. Os militares presentes comentavam aqueles horrores. A meia voz, a fim de não inquietar noivos e convivas.

"Graças a Deus e a Salazar".., o senhor Capitão nunca teve problemas até ao fim da Guerra. Algumas vezes esteve temporariamente afastado da esposa, em diversas bases, mas desde que partiram para os Açores, estava tudo como Deus com os Anjos. Ainda bem.

«Lena, tu estavas de cabecinha no ar, com os uniformes de gala daqueles colegas do meu marido, não estavas?» Pois não era razão para menos, Menina.

Lembrava-se Helena de, durante o copo- -de-água, um dos jovens aviadores, empunhando uma taça de champanhe, ter declarado solenemente: «Houvesse justiça no mundo, Vossa Excelência, minha senhora, não se chamaria Dona Maria Romana. Mas sim, Dona Patrícia Romana!»

Protestos militares contra o desconchavo do camarada. Já a Senhora da Quinta, apanhando o propósito do rapaz, dominou um breve rubor e retribuiu sorrindo. «Patrícia entre as romanas?… Muito gentil, senhor alferes.»

«Para terminar, Lena, conhecerás a razão por que se dizia: “Duas irmãs casadas na mesma boda vão roubar a felicidade uma à outra”.

Coisas sem jeito, Menina, ignorância do povo. Como podiam duas manas tão amigas roubar a felicidade uma à outra? Fiquemo-nos por aqui.

Bem melhor seria que a menina Né continuasse a mandar-lhe notícias dos filhos. Estariam uns amores, benza-os Deus. Efe e Isa.

 Para quando o envio de mais fotografias à Senhora? A Mamã não sai sem os retratos dos meninos. Quer mostrá-los às amigas. Pediu ao senhor Fonseca, o chofer, que lhe pergunte, antes de entrar no carro, se «leva também os netinhos». Coitadinha da Senhora, pudesse ela tê-los aqui por uns dias, poucos que fossem… A confirmar-se a vinda do menino Efe, para a festa, vai ser um ai Jesus.

Helena sabe que está a repetir-se: pois muito se tinha rido, por causa  daquele encontro do menino com os cavaleiros… Não guardou segredo, é certo, – fez mal? Toda a gente na Portela acabou por vir a saber.

Contava a menina Né. Tinham ido de automóvel aos Biscoitos…. Biscoitos, Menina? «Nem mais, Lena, uma praia, no norte da Ilha Terceira.» Admiravam a paisagem quando, de repente, o menino Efe meteu conversa com dois jovens cavaleiros. Deslocavam-se para uma toirada à corda. 

Parecia conhecimento de longa data. Um dos rapazes pediu licença para montar o menino na sela. Encurtou as correias dos estribos, ajudou-o a subir, a firmar-se e passou-lhe as rédeas. Não estivessem os pais receosos, não senhor. O cavalo, obedecendo mais à voz do dono do que ao novo condutor, deu duas voltas, a passo vaidoso.

Quem diria, um menino de sete anos! Já nascera ensinado? Que tinha aprendido com o avô. E adiantou, com risota dos presentes: «Ó mamã, quando eu for à Quinta do avô João, posso trazer um cavalo, não posso? Depois vou passear com estes senhores.»

Viria o animal de barco ou de avião? perguntou um dos açorianos. Isso agora…Mesmo assim, ficou assente: logo que do Continente chegasse o animal, iriam todos ao pasto ver os touros. Uma pena o senhor Capitão, na altura, não ter mais rolo na máquina fotográfica.

E a menina Isa? Quando teria Helena a sorte de a abraçar?

Nem sempre Helena aparentava a mesma atenção pelas cartas dos Açores.. Por exemplo, passou ao lado do que lá vinha sobre a Outra.

«Como se atreve o Papá a instalar, de cama e mesa, na Quinta Velha, aquela senhora? A dois passos da nossa casa! Que falta de respeito pela Mamã…. Sim, sim, finge que não, mas está a par de tudo. Eu, eu morria, se fosse comigo.»

Estava, também ciente da ordem dada ao criado das compras. Fosse o Eugénio levar uma carroçada de produtos da horta, das capoeiras e da despensa ao hospital da Misericórdia. Estavam em apuros os irmãos mesários, sem conseguir calar bocas doentes e esfomeadas. Aproveitasse para deixar nos Correios, como de costume, toda a correspondência. De volta, trouxesse os jornais da Senhora!

Ao portão da Quinta, o Zé Melro fez alto à carroça. Contra-ordem: o destino não era a cidade. Seguisse antes pela estrada de Rio Maior e descarregasse na Quinta Velha. «Nem oh, nem meio oh, 'Génio!». Segunda recomendação: liberto da carga, fosse, então, para Santarém, pelos jornais, sem se esquecer de passar pelos Correios e… Acima de tudo: nem pio! Ou despedimento para os dois. Carroceiro e mensageiro. Quem manda pode, pois claro.

«Como teriam chegado aquelas coisas feias aos Açores, meu Deus?»

Finalmente. Poderia Helena imaginar a mágoa da menina Né? Sempre que ficava sozinha com os filhos, por o marido se demorar em serviço em Santa Maria ou S. Miguel. Ultimamente, perturbada até com as suas  mais curtas demoras. Estaria ele de facto numa reunião com o comando americano das Lajes? Nem todas as esposas dos senhores oficiais se dedicavam assim tanto aos maridos. Algumas …

Já se vê, nem precisava de pôr mais na carta, Menina.

Quanto ao mais, quer dizer, assim queixas, queixas concretas, apenas as da falta do aroma do pinhal e dos matos da Quinta. Ah, também qualquer alusão, aos pavões…

Embora isso já  não possa, de momento,vir à colação Fica para depois, muito mais tarde. Quando Helena foi chamada ao quarto da Senhora, e teve ensejo de ler aquela carta chegada com os últimos papéis dos Açores. Valha-nos Deus! 

Deixa lá, Helena – nem sei se ainda vives! – não contes mais hoje. Fiquemo-nos apenas pelas últimas linhas. Repete-as então, se faz favor.

.

«…muito triste, minha amiga. Afoga-se-me o coração numa lagoa de mágoa. Um grande abraço…»

***

Em minha casa, ouviram-se gritos. Convulsivo pranto da Ilda, nos braços do irmão Mário. Uma grande desgraça. Todo o trabalho suspenso, na Quinta. A menina Né! Tinha ido ao encontro da morte.

Ninguém sabia, ninguém sabe, porquê.

Escrito em 2011