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sábado, 12 de setembro de 2026

Um Livro ao Fundos da Escada


Misericórdia. Mercês. Quatro-Caminhos…

 Sigo por este!

Casa decrépita, monte de livros abandonados, ao fundo da escada. Órfãos de leitura. Por compaixão, o passante revolveu… 

Logo ouviu gritos:

- Chapitô ! Chapitô! Chapitô!...

 Quem vive!? Apeteceu-lhe dar de troco:

«…. e cabriola , rebola, pega fogo à multidão…»

Mas? Não seria aquilo! Escorregava-lhe a memória, de Guilherme de Azevedo para José Régio. E agora?

Teria de procurar nos versos do outro, de um palhaço coxo, seu conterrâneo à distância de séculos:

«Correi , subi, voai, num turbilhão

fantástico

por entre as saudações 

da turba que festeja o semideus 

elástico

nas grandes ascensões.»


Agora sim. A farsa continua.

Remexendo no monte de livros, caiu-lhe aquele. Só poderia vir dali o grito: «Chapitô! » 

Ah é? Pois, vou levar-te comigo. Aqui ainda te lançam à guilhotina. À fogueira…Para serve nos nossos dias um livro abandonado? - digam-me lá.

2

Eis então, Estimadas  e Estimado  Vizinhos do Livro, o que eu vos trago, levantado da calçada. O nosso próximo…desafio. Um palhaço!

Adriano, Quinito… Emiliano…

 Emiliano e um riso trágico de quem tem a filha no velório e vem ali ao circo, animar o delírio de tantas meninas e meninos. Está na hora, é o teu número! Contem as lágrimas.

E nisto…

Opina o nosso Augusto que a única guerra legítima é a do palhaço-rico com o seu confrade pobre…

 «… Surpresa, Mamã, em nossa casa, eu já vi uns sapatões iguais aos do palhaço Vira-Vento. Mamã, Mamã, ele também mora na nossa casa?»

Ficou Marta sem resposta…

- … um palhaço é uma pessoa, não é um espantalho no ervilhal, acho eu. – dirá a Vizinha C…

Nem um D. Roberto, um saltimbanco… Não precisa de coroa, basta-lhe o nariz vermelho. E logo lhe chamam doutor… Rei dos Circo…

-  Os palhaços são humildes! - acrescentou alguém do nosso Grupo.

- … também tenho palhaços ao fundo da memória. De quando levava os meninos, da família onde estava a servir, ao Coliseu. No inverno. Riam, riam, riam e, quando chegavam a casa,diziam aos pais que quem tinha rido mais tinha sido eu, a Maria!...

Hoje aqui não há   máscaras nem carrancas; e mais, não queremos ter aqui carrancudos.

Há um livro à nossa frente.

Notas:

Este texto Não seria possível, sem o contributo de Lídia, Natalina, Celeste Rodrigues, Augusto…

Pretende ser a apresentação da segunda série dos Encontros de Leitura que, no passado  realizámos, com gosto e determinação durante alguns anos.

 


Escriba desgovernado

 Escriba desgovernado. 

Sem bússola.

Visitam me na madrugada suburbana entre chilros de merlos e plangências de rouxinol, as figuras de outros escribas. Tristemente sentados a porta das repartições públicas. À espera. Que algum iletrado a eles recorresse. . No preenchimento de um impresso, na solicitacão de um direito. Como testemunhas de ato a registar.

Humildes reformados , iludidos proprietários de todo o tempo do mundo.

 Prestada a ajuda, acompanhavam o requerente até ao manga de alpaca. Findo o despacho, guardavam no discreto surro do bolso, a gorjeta. "Tudo em conformidade!"

Escriba desgovernado. Ainda aqui estou...

2. ++++++++++++++++++++


Varanda de roupa pendurada

E um poema do Régio que atrapalha passo e memória nas escadinhas ....

Pois era. 

Foi ali atrás uma livraria multigeracional. Agora? Tens lá a marca de sapatorros para atravesares o Deserto: DakarShoes! 


E toma que vais almoçar à Praça da Figueira, se não escorregares no empedrado. Segurança Máxima, bandeira publicitária nas janelas do terceiro, no prédio em frente. Por baixo...

foi a Papelaria Fernandes, que muito esperneou até.à sua conversão em comedouro turístico. 

Livros e papéis levam a sua conta nesta Lísbia desalmada. 


Mas não falemos hoje de books , meu... Nem das livrarias que Deus tem.

Quantas?

 Estende a mão , conta:

Clássica Editora, nos Restauradores...

Pede licença aos turistas e entra no Rossio. 

Lembras das livrarias do Diário de Notícias? E a d'' O Século? 

Da primeira fizeram um mercado de panos, hoje havia um letreiro anunciante de boa nova remessa de toalhas a kilo.

A segunda irá seguramente ampliar o café do lado..


Sobe ao Chiado e ri do que eram a Lello e a Portugal. Havia ali empregados que tudo faziam para servir a cultura. Foram emudecendo, á medida do afastamento dos clientes. Um dia despacharam-nos para o Desemprego


..



Foi pela roupa pendurada, além nas águas-furtadas, lá em riba. Não te iludas, com a breve prova de vida que aquilo é, nesta aridez de almas depenadas.

Quem ali ali ficou, por não ter outro poiso, tem de trepar por escadório escuro e apodrecido. Passar diante de portas onde, desde há muito, ninguém assiste. Consola-se e enlouquece por nunca ouvir berreiros nem latidos. Nem sobe-e-desce de colchões no quarto de cs. 

Há andares vagos na vertical do prédio. Morreram. Foram quartos, salas, cozinhas, corredores e correrias de criança; hoje são mofo e silêncio...


Quem tem de pernoitar lá em cima vive na solidão do telemóvel... Talvez ainda na do 


Sala de espera


Aguarde na sala d'espera! rosnou o Segurança

Venho pedir alvíssaras à médica de família. Alvíssaras de tempo.

Aguardo junto de crianças alegres de enfado 

Ainda falta muito?

 E pais impacientes 

Cala- te! Não vês que 'tou ao telemóvel.

Caso único: pai e filho jogam à sardinha

Para esconder o tempo.

Voz da parede chama para a consulta.

E nós mãe?

E eu? Quando chegará a minha vez?



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"Talvez o passado seja somente uma bela cicatriz.

Ondjaki