Escriba desgovernado.
Sem bússola.
Visitam me na madrugada suburbana entre chilros de merlos e plangências de rouxinol, as figuras de outros escribas. Tristemente sentados a porta das repartições públicas. À espera. Que algum iletrado a eles recorresse. . No preenchimento de um impresso, na solicitacão de um direito. Como testemunhas de ato a registar.
Humildes reformados , iludidos proprietários de todo o tempo do mundo.
Prestada a ajuda, acompanhavam o requerente até ao manga de alpaca. Findo o despacho, guardavam no discreto surro do bolso, a gorjeta. "Tudo em conformidade!"
Escriba desgovernado. Ainda aqui estou...
2. ++++++++++++++++++++
Varanda de roupa pendurada
E um poema do Régio que atrapalha passo e memória nas escadinhas ....
Pois era.
Foi ali atrás uma livraria multigeracional. Agora? Tens lá a marca de sapatorros para atravesares o Deserto: DakarShoes!
E toma que vais almoçar à Praça da Figueira, se não escorregares no empedrado. Segurança Máxima, bandeira publicitária nas janelas do terceiro, no prédio em frente. Por baixo...
foi a Papelaria Fernandes, que muito esperneou até.à sua conversão em comedouro turístico.
Livros e papéis levam a sua conta nesta Lísbia desalmada.
Mas não falemos hoje de books , meu... Nem das livrarias que Deus tem.
Quantas?
Estende a mão , conta:
Clássica Editora, nos Restauradores...
Pede licença aos turistas e entra no Rossio.
Lembras das livrarias do Diário de Notícias? E a d'' O Século?
Da primeira fizeram um mercado de panos, hoje havia um letreiro anunciante de boa nova remessa de toalhas a kilo.
A segunda irá seguramente ampliar o café do lado..
Sobe ao Chiado e ri do que eram a Lello e a Portugal. Havia ali empregados que tudo faziam para servir a cultura. Foram emudecendo, á medida do afastamento dos clientes. Um dia despacharam-nos para o Desemprego
..
Foi pela roupa pendurada, além nas águas-furtadas, lá em riba. Não te iludas, com a breve prova de vida que aquilo é, nesta aridez de almas depenadas.
Quem ali ali ficou, por não ter outro poiso, tem de trepar por escadório escuro e apodrecido. Passar diante de portas onde, desde há muito, ninguém assiste. Consola-se e enlouquece por nunca ouvir berreiros nem latidos. Nem sobe-e-desce de colchões no quarto de cs.
Há andares vagos na vertical do prédio. Morreram. Foram quartos, salas, cozinhas, corredores e correrias de criança; hoje são mofo e silêncio...
Quem tem de pernoitar lá em cima vive na solidão do telemóvel... Talvez ainda na do
Sala de espera
Aguarde na sala d'espera! rosnou o Segurança
Venho pedir alvíssaras à médica de família. Alvíssaras de tempo.
Aguardo junto de crianças alegres de enfado
Ainda falta muito?
E pais impacientes
Cala- te! Não vês que 'tou ao telemóvel.
Caso único: pai e filho jogam à sardinha
Para esconder o tempo.
Voz da parede chama para a consulta.
E nós mãe?
E eu? Quando chegará a minha vez?
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"Talvez o passado seja somente uma bela cicatriz.
Ondjaki
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