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sábado, 12 de setembro de 2026

Escriba desgovernado

 Escriba desgovernado. 

Sem bússola.

Visitam me na madrugada suburbana entre chilros de merlos e plangências de rouxinol, as figuras de outros escribas. Tristemente sentados a porta das repartições públicas. À espera. Que algum iletrado a eles recorresse. . No preenchimento de um impresso, na solicitacão de um direito. Como testemunhas de ato a registar.

Humildes reformados , iludidos proprietários de todo o tempo do mundo.

 Prestada a ajuda, acompanhavam o requerente até ao manga de alpaca. Findo o despacho, guardavam no discreto surro do bolso, a gorjeta. "Tudo em conformidade!"

Escriba desgovernado. Ainda aqui estou...

2. ++++++++++++++++++++


Varanda de roupa pendurada

E um poema do Régio que atrapalha passo e memória nas escadinhas ....

Pois era. 

Foi ali atrás uma livraria multigeracional. Agora? Tens lá a marca de sapatorros para atravesares o Deserto: DakarShoes! 


E toma que vais almoçar à Praça da Figueira, se não escorregares no empedrado. Segurança Máxima, bandeira publicitária nas janelas do terceiro, no prédio em frente. Por baixo...

foi a Papelaria Fernandes, que muito esperneou até.à sua conversão em comedouro turístico. 

Livros e papéis levam a sua conta nesta Lísbia desalmada. 


Mas não falemos hoje de books , meu... Nem das livrarias que Deus tem.

Quantas?

 Estende a mão , conta:

Clássica Editora, nos Restauradores...

Pede licença aos turistas e entra no Rossio. 

Lembras das livrarias do Diário de Notícias? E a d'' O Século? 

Da primeira fizeram um mercado de panos, hoje havia um letreiro anunciante de boa nova remessa de toalhas a kilo.

A segunda irá seguramente ampliar o café do lado..


Sobe ao Chiado e ri do que eram a Lello e a Portugal. Havia ali empregados que tudo faziam para servir a cultura. Foram emudecendo, á medida do afastamento dos clientes. Um dia despacharam-nos para o Desemprego


..



Foi pela roupa pendurada, além nas águas-furtadas, lá em riba. Não te iludas, com a breve prova de vida que aquilo é, nesta aridez de almas depenadas.

Quem ali ali ficou, por não ter outro poiso, tem de trepar por escadório escuro e apodrecido. Passar diante de portas onde, desde há muito, ninguém assiste. Consola-se e enlouquece por nunca ouvir berreiros nem latidos. Nem sobe-e-desce de colchões no quarto de cs. 

Há andares vagos na vertical do prédio. Morreram. Foram quartos, salas, cozinhas, corredores e correrias de criança; hoje são mofo e silêncio...


Quem tem de pernoitar lá em cima vive na solidão do telemóvel... Talvez ainda na do 


Sala de espera


Aguarde na sala d'espera! rosnou o Segurança

Venho pedir alvíssaras à médica de família. Alvíssaras de tempo.

Aguardo junto de crianças alegres de enfado 

Ainda falta muito?

 E pais impacientes 

Cala- te! Não vês que 'tou ao telemóvel.

Caso único: pai e filho jogam à sardinha

Para esconder o tempo.

Voz da parede chama para a consulta.

E nós mãe?

E eu? Quando chegará a minha vez?



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"Talvez o passado seja somente uma bela cicatriz.

Ondjaki 

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