segunda-feira, 6 de fevereiro de 2023
ESCREVIVÊNCIAS 22
quarta-feira, 1 de fevereiro de 2023
Merendeira
Bom dia.Estou de novo no Hospital. Exames continuam. Máquinas, intrusões,relatórios .
Gelo! Em jejum desde ontem.
Vista-se, espere no corredor. Não! Não pode comer. Ainda não.
Gelo!Lá fora há sol, dizem uns maqueiros a empurrar uma inerte criatura.Gelo!
Esperar neste conversê sobre maleitas, gelo e fome.
Um médico e enfermeiras confraternizam um cafezinho. Espremido de outra máquina: BREAK Hot drinks...
Só me apetece aquela merendeira quente. A brindeira rasgada em quatro pelos dedos da minha mãe .
Nunca se queimava , mesmo quando dizia Poças! Deus me perdoe.E soprava nas mãos .
Pão flumegante com aquele risco de azeite . Breve luz desfiando-se da almontolia, à boca do forno da minha avó...
Porquê azeite?! Panaceia, garante a nossa amiga Marilisa, sem nada topar de medicinas ....
Mas ao que vêm agora estas mulheres ? Não vos quero aqui no gelo deste Hospital.
À merendeira, sim! Fumegante. Com um fio de azeite e de sol.
São primos, sabias? Sim, azeite e sol - perguntou -me há muito anos uma pintora fotógrafa.
Espero no corredor que não se repitam os exames. Gelo!
Lisboa, 31 janeiro 2023
sábado, 28 de janeiro de 2023
Caminhemos
Caminhemos, Companheira,
Passo lento.
Mãos dadas
Até onde
no chão nos dissipem
as sombras... Além.
Além
entregues à raiz
do cipreste...
Virão o Sol, a Chuva
o Vento...
Com eles de novo
aprenderemos o voo
das aves
e daremos as asas.
quarta-feira, 18 de janeiro de 2023
O Medo
Espantaram-se os pombos.
sexta-feira, 16 de dezembro de 2022
CONTAS Do RECADO As pedras
Pedras
soltas e só
para além do olhar
pedras em cinza
deserto.
Porquê este plaino
em silêncio?
Day after... implosão
de montanha
nuclear desgovernado
escórias de abusiva mineração...?
Minguante luar
faz sobressair lajedo.
É o palco vazio onde chega
a voz de conhecido ator anunciando a última
representação .
Ficamos até ouvir:
"Acta est fabula".
Caem mais pedras.
Rio de Mouro, 15 dezembro 2022
domingo, 11 de dezembro de 2022
ESCREVIVÊNCIAS 2. 21 O MIGALHEIRO DE NATAL
O MIGALHEIRO DE NATAL
«Que é a vida, s’ Toino?», atirava-lhe o
Domingos, quando entrava na taberna.
«Oh!... É uma vela de sebo a apagar-se»,
gemia.
Deixemo-nos hoje de lamúrias, António Metaneiro, que temos obra à nossa espera. Nem mais, o prédio da Quinta.
A residência dos proprietários era a mais imponente da Portela. Um edifício de dois andares, farto de janelas.. Entrada principal, abrindo-se a sul -depois de quantos degraus? - por um arco de pedra, apoiado em mainel, ao centro. As águas do telhado: duas mestras, a nascente e poente fechadas por duas tacaniças. Chaminés.
Mas tudo se dilui… Neste absurdo que me prende a uma casa onde nunca entrei. Lastro de paisagem em renúncia. Flocos alvacentos, laivados de vermelho terroso e cobalto. Num horizonte de verde-pinho.
***
Quem tinha tudo aquilo na cabeça era o António Metaneiro.
Vinha de uma família de metaneiros
(1), nados e criados na Quinta. Pais, irmão e irmãs
lá deixaram dedicação, saber, suor e pragas.
***
António. Enfermiço, agarrado à pinga. Entretinha-se com biscates em madeira: Ora peanhas para as candeias de azeite e candeeiros a petróleo ora galheteiros, caixas de costura, saleiros….
Objetos de venda difícil, dada a resistência
à compra de coisas passadas pelas mãos de um tuberculoso.
Tomava como matéria-prima tabuinhas toscas
de caixote de sabão, cedidas pelo Gil da mercearia. Ou desperdícios de carpintaria da Quinta.
:***
Uma manhã, ao balcão da taberna, o Domingos tinha o António Metaneiro. Serviu-lhe a dose do costume, para mata-bicho: um traçado de aguardente e abafado.
Escorrida a pinga, o bebedor confirmava a retirada do seu copo para longe do uso dos outros bebedores, por via do contágio. Que fosse passado a cloreto e guardado debaixo do balcão.
Já lhe bastava a ele! Nem ao maior
inimigo queria pegar aquele mal.
Felizmente só tinha amigos, gabava-se. Muito embora.
« Então e
hoje, o que leva aí na talega?»
Abriu e colocou em cima do balcão três
peças cheirando a tinta fresca. Azul, branco, vermelho.
«Como vês, Domingos, consegui! E cesteiro
que faz um cesto…»
Estariam à escala? Tinha de construir uma bitola, para poupar tempo e material.
Arranjara compradores, melhor
dizendo, compradoras, no dispensário em Santarém. Haveriam de surgir
mais encomendas. Talvez até o patrão do Domingos autorizasse a venda daquilo
ali na loja. Iria deixar um exemplar para amostra.
Era o prédio da Quinta, sem tirar nem
pôr. Do lance de escadas, na entrada principal, aos para-raios!
***
Agora a porca torce o rabo. Como vou
eu talhar na escrita o que o Domingos me garantiu ter visto afeiçoado pelas
mãos do Metaneiro?
Talvez com a ajuda da Maria Afilhada.
***
Encontrámo-nos num almoço de confraternização de parentes, há uma dúzia de anos.
Mesmo alegando roubada de memória, ajudou.
A mãe era lavadeira na Quinta. Para não a deixar sozinha em casa, levava-a consigo. Por lá passou a infância, descobrindo cantos e recantos
«Ali também era a minha casa... Gostava que
fosse. estão a ver...?
« A MINHA CASA
Tem lareiras e fogões a minha casa...»
Assim começara uma redação, na Escola,
quando a professora pediu que descrevessem a casa onde moravam.
Continuando, a garota chamou a si: a cozinha grande e farta, despensa e copa conformes. Salas e salões, escadarias, mármores, lambris...muitos quartos quadros e retratos. Aromas de ceras e perfumes de banho…
Estarrecida, pausava a leitura em voz alta, para ver o
efeito na audiência.
«A tua, casa, Maria!! » gritou-lhe a professora.
Risota na aula. Que vergonha!!!
«Olhem que ainda hoje tenho lágrimas nos
olhos!!! Pois não! Aquele nunca podia ser o meu casulo. Havia na sala crianças descalças. Estava-se no inverno.»
Voltemos à taberna...
O Metaneiro não tardou, para mostrar o molde.
«Trinta e duas janelas ... conta, Domingos! Toda a gente sabe, o prédio tem mais uma janela
do que os dias do mês.»
Agora, mãos à obra. Ia fazer os seus migalheiros!!!!
Ou seja, mealheiros! Siga a conversa.
************
Nascera e residira na Quinta dos
Anjos mais de trinta anos. Como a doença não cedesse, António teve de sair para, com a
mãe, se fixarem na última casa habitável nos fundos da
azinhaga da Besteira. Quase a chegar ao Cervato.
Se nem o pinhal da Quinta nem o sanatório
o haviam curado, deixassem-no, ao menos, ali morrer em paz, no isolamento do olival.
Com os olhos vidrados no prédio da Quinta, riscava, cortava, colava, pintava os migalheiros. Comprassem-lhos, sem asco. Soubessem apreciar cada miniatura, desde a barra azul do rés-do-chão à alvura das paredes.
Apreciassem o rigor do entablamento, as inclinações do telhado, o alinhamento de chaminés e águas furtadas. A minúcia dos cunhais, cantarias, varandas.
E tirassem
proveito das poupanças ali guardadas.
Moedas ou até notas. Inseridas por uma ranhura horizontal, aberta a meio do trapézio da agua furtada do tardoz, caíam no bojo do prédio.
Viessem horas de aperto, bastava deslizar o fundo para retirar a quantia em falta.
Se para os gastos chegasse.
Os migalheiros do António
Metaneiro.
***
Naquele ermo, o doente e a mãe viviam sobretudo das dádivas do proprietário da Quinta. Com as quais ela procurava pagar a renda da casa, comida, alguns medicamentos… E, antes de mais, vários carregos de vinho por semana, da taberna da Besteira.
Reserva e compaixão da vizinhança, frente
aos vaivéns e à desdita da velha Maria Metaneira
Pano sujo das escarnicadeiras, aquele martirizado viver
de mãe e filho.
Diziam que o Metaneiro se lhe desfazia em pedidos de perdão por coisas contra os costumes e a moral pública.
Nunca se descobriu o contorno entre verdade e infâmia naquilo que o António teria dito ou naquilo que os vizinhos lhe teriam posto na boca.
***
Constava ter mandado, em vésperas de Natal, oferecer, ao patrão dos Anjos, uma das mais perfeitas miniaturas do migalheiro . Com um bilhete que ninguém leu…
Que o destinatário arrepiasse caminho. Quanto a mancebias, ostentações marialvas e esbanjamentos da fortuna…Seria tão bonito se o patrão deixasse de ser o «velho gaiteiro» e prezasse mais os seus.
Num mundo ao contrário, o
beneficiado pregava virtude ao benfeitor.



