sexta-feira, 5 de agosto de 2022
Escrevivênvias 2.16 Um ervanario vadio, sota na Quinta dos Anjos
Pois, Carlos, não se fala mais desse verde
dossel de atalantes, o Pinheiro da Júlia Boleeira. De acordo, ficou uma
clareira no céu. Mas acabou: nem uma lágrima! Seja pinheiro ou leite derramado.
Também sobre a doença da lua
não conto com fiável informante. Adultos aluados? Burros e burras? Esclarecidos
estamos... Mas bebés definhando com lua?… Pudesse eu consultar por email
o meu trisavô Emídio… Que há de ser o tema enviesado de hoje, se … lá chegar.
Nem mais! Quebrar o viço das folhas
frescas, a uma chama viva, e colocar sobre a ferida. Vulnerária. Cuidado com
estas memórias tardias. Sobretudo, não me responsabilizo por experiências
medicinais.
Insistia Fernando Belchior que as estevas tinham ali
chegado pela mão do seu pai, trazidas minúsculas sementes, dos lados de
Alcanede. De facto, só existiam mesmo no Alto dos Anjos, dentro e fora da
Quinta.
As mulheres aprendiam a
distingui-las nas mondas e ceifas e assim lhe iam interiorizando as virtudes.
Sem esquecerem a arruda, que se dava bem nas encostas incultas das Lobas.
Olha-me agora para eles a falar em salvaguarda
da biodiversidade. ‘tá bem, abelha!
Mais exato: o meu trisavô
Emídio, por alcunha o Serpa Pinto e o meu tio Joaquim Marona. Cada um
no seu estilo, veremos.
Barrão entre barrões, infatigável na modernização da sua quinta, ainda
lhe restava tempo para voltar a refletir sobre política socioeconómica, desde
a época revolucionária de 32-34. No horizonte, esperavam-no apenas mais três anos de vida. Herculano fazia o balanço final.
Quando eu frequentava a Escola da Portela,
oitenta anos após estas cartas de Herculano, muitas das suas observações eram
ainda localmente pertinentes. Leia-se a nota final.
Que lhe regularia o
seu calendário íntimo? Ou porque estava faltando na mistura das defumações?
[……]
***
Desse modo o meu antepassado Serpa Pinto
teria adquirido formação de base e mestria com as quais, até fechar os
olhos, terá zelado pela saúde da vizinhança. À falta de melhor, pois claro. Ficou por esclarecer que ligação teria tido com o Doutor Oliveira Feijão, o senhor da Mafarra.
Emídio da Silva servira até muito
tarde, como sota, na Quinta dos Anjos. Sota era posto na hierarquia de
boieiro. Logo abaixo do maioral, o responsável pelo trato e labor do gado. Só
recentemente, com a Maria Alzira aprendi um pouco mais sobre tal personagem.
Que a nossa amiga dá como chegado ao cargo de abegão.
Moravam
na Quinta dos Pinheiros, no foro onde depois foi o “Bairro Azul”.
Não me alongo mais sobre meu avô Serpa
Pinto. Voltarei, prometo.
[i]
“No actual estado de cousas, o ensino obrigatorio não passa de mais um flagello
para a pobre familia obreira, que lhe opporá constantemente uma resistencia
passiva, mas invencivel. Afigura-se-me que toca as raias da crueldade
dizer—«manda á escola teus filhos»—ao homem que habitualmente dorme vestido na
esteira de tabúa, na casa de telha vã, onde, se géa, tiritam de frio elle, a
mulher e os filhos, porque a roupa falta; que, se chove, não tem fato para
mudar, e ás vezes nem sequer lenha para o enxugar; cuja alimentação é de
ordinario ruim, quando não insufficiente; e que, como se isto não bastasse,
sente com frequencia apertar-se-lhe o coração ao dizer-lhe o lavrador, no
sabbado: «Para a semana não ha que fazer.»
D’esses filhos que lhe pedem para a
escola, um, dois, os mais velhos, são pastores ou ajudas; sustenta-os, dá-lhes
agasalho o lavrador, e os seus pequenos salarios mais de uma vez vão supprir
esta ou aquella falta urgente da familia: outro leva a comida ao pai, que
trabalha a um ou dois kilometros de distancia, o que facilita á mãi exercer
algum mister retribuido: os de seis a nove ou dez annos discorrem descalços
pelas estradas ajunctando nas pequenas cestas os excretos que na vespera ahi
deixou o transito dos animaes, miseravel industria, que, todavia, no fim do
anno produz o valor de alguns cruzados, que resolvem uma ou mais difficuldades
da dura vida do obreiro: outro, pouco maior, vai á fonte, á lenha, ao recado;
chamam-no para guardar aves domesticas, para colher ervas ou flores medicinaes,
para afugentar os passaros que damnam os fructos ou as searas, para dez ou para
vinte serviços analogos.
E todos esses serviços tem uma
retribuição, que se incorpora nos recursos da familia e lhe cerceia o numero
das privações. É humano, é justo; digo mais, é moral aggravar a miseria do
trabalhador, tornar mais escura a noite do seu viver em nome da luz interior?
Bem desejaria eu tambem tecer a minha olympica á escola obrigatoria: as
phrases, os periodos, as estrophes andam já vasadas em fôrmas: basta haver
novidade na invenção das suturas. Veda-m’o a consciencia. Esperarei que ou a
escola se ageite a estas condições da familia obreira, o que vejo longe, ou
que, melhorada a situação d’essa familia, a escola deixe de significar para
ella um intoleravel imposto.”
In The Project Gutenberg EBook of Opúsculos por
Alexandre Herculano – Tomo IV by Alexandre Herculano, http://www.gutenberg.org/cache/epub/17177/pg17177.html
segunda-feira, 23 de maio de 2022
BIBLIAMBULE
Bibliambule 1
A questão:
Será que os carrinhos-de -compras contam estórias?
Vejamos...Aceitei o desafio, John! Serei capaz de dar conta do recado?
Voz ao carrinho!
***
Já não seria o Rodas nem Rodinhas...
tampouco Charriot ou Camionette! Seria a
Bibliambule!
Dos porquês da mudança nada sei.
Gui levara-me no Alfa, carregando livros.....
***
Até ali, enquanto me usaram na Fraternal da Achada, cumpri
em todas as atividades durante anos. Carregador, na minha indiscutível
condição. Carrinho de compras.
"Alombei", como dizia o Maça, com os mais
diversos materiais.
Apoiei nas mais diferentes tarefas. Começando pela instalação no novo espaço da Associação. Usaram-me na arrumação do espólio do Patrono.
Usaram-me na Biblioteca. Fui prestável ao Coro . Ajudei na montagem de exposições,
nas sessões de Cinema e Teatro, nos debates e palestras...
Desculpem a vaidade de dizer que até entrei numa das
representações. Encenada pela Gui. Como adereço, está claro!
Desloquei trastes e bugigangas, por ocasião das feiras de velharias. Ali
mesmo, ao ar-livre, no Largo da Achada.
Trouxe do supermercado viveres para as confraternizações.
Muito se divertia o Angel nos passeios de S Cristóvão à Baixa... Ele, com uma indumentária de
palhaço, umas orelhas de elefante, peitorais e dorsais... Incansável painel publicitário do muito que se fazia e faz na nossa Associação.
Havia sempre um modo de as minhas rodas e o meu saco ajudarem na construção dos dias.
Repetidamente, também ouvi por lá da necessidade de construir e dar um novo sentido aos dias.
***
Foi no Porto, repito, que a Gui, me mostrou uma nova maneira de servir
a Fraternal da Achada.
Até o JN nos deu honra de fotografia e desenvolvido artigo.
Gui desafiava os passantes, nos Aliados, a tirarem um livro do
meu saco. Escolhessem, a gosto...
E agora?
- Pois agora vamos ler e dar vida ao texto....
Era a Gui no seu melhor. Ler a meias: moitié-moitié ! Dramatizar. Improvisar texto.
Moitié-moitié?! Olha! Só agora me lembrei de dizer que a madrinha pensava em francês.
Nascida em França, filha de emigrantes portugueses, radicada em Bruxelas. Fluenciava nas duas línguas.
Visitava várias vezes por
ano a Achada. Era só sentir a falta dos amigos, logo se punha a
caminho. Sempre recebida em festa!
Foi no regresso do Porto. A Gui anunciou aos amigos:
- Vamos ter duas bibliambules!
Eu, que ficaria em reserva na Fraternal…
E uma outra?
A Gui já tinha em vista uma nova companheira de rua .... Para continuar os desafios aos transeuntes. Em Bruxelas:
A Bibliambule 2!!
Já pedira o risco a um designer seu amigo.
Tal decisão em nada me afetou. Pudesse a minha sucessora ser lá tão prestável, como diziam que eu era aqui.
(Continua)
quarta-feira, 18 de maio de 2022
ESCREVIV. 2.15 Branca e Alice, no alto dos Anjos
Só atentos à realidade, poderemos ser surpreendidos pela fantasia.
Como eu queria que esta parlenga trouxesse aqui, ao portão da Quinta
dos Anjos, os poderes de três magos. A quem crianças como vocês -Marta, Sofia ,Tiago...Álvaro, Pedro - tanto devem. Já sem falar dos que,
antes e depois deles, temperaram tal magia.
***
Agora, voltando à Portela e arredores. Sabem os meus leitores, se os
tenho e se me assiste o direito de os incomodar com perguntas, quem foi o
primeiro leiteiro-à-porta lá/cá do sítio?
Esse mesmo, velhotes!
Adílio Henriques, filho do cesteiro ti’
Manuel da Susana e da ti’ Maria Águeda.
Tinha ela, sim senhores, olhos de aço polido. Por injustiça e ignorância, assustadas mães lhe esquivavam as crianças de colo, não fosse a velha dar-lhes quebranto. Carcaça sofrida. Tuberculose, sanatório, morte de descendentes… cercaram-na de dramas.
Teve ainda de assistir, noutros palcos, a chufas e dichotes:«Ai que estojo!!!».
Farsas do acasalamento. Outros quebrantos, pois
até no melhor pano…
Ora, uma tarde, apareceu em minha casa, sem aviso prévio, o Adílio. Bata
branca, bilha e caixa das medidas refulgindo higiene. Sorria garantias de
qualidade. Futuramente seria ele a fornecer o leite, vendedor da Cooperativa.
Interessados? À primeira vezada, tratava-se apenas de prospeção do mercado.
A bilha, vazia, falava por si. Querendo-se confirmar, bastava tirar a tampa e abrir a caixa das medidas. Tudo alumínio de primeira e respetivas aferições. Tanto lustre por dentro como por fora. Coisa rigorosa.
A partir do dia
seguinte, todas as bilhas sairiam seladas da Cooperativa. Onde é que já alguma
vez se tinha visto uma coisa assim?
Nem a ti’ Luísa Caréu da Quinta dos Anjos que, até então, assegurara uma venda satisfatória. Secas que fossem as tetas do Gana ou do João Hipólito, salvo seja. Das suas vacas, está claro!!!!
A seu tempo se falará destes dois fornecedores sazonais.
Já chega para atestar que, antes da Cooperativa, quem queria beber ou dar a
beber leite fresco, tinha de se deslocar à fonte do dito. E por vezes voltar a
casa com a vasilha vazia.
Então e os magos ? Tenham paciência, que a patranha demora, como
dizia o meu amigo Joaquim Ferrador, enredado em histórias de caça.
O leite, para mim, «podia correr por uma telha», parecer da minha mãe. Para em cada manhã me deliciar com uma tigelada de sopas, salpicadas com café de mistura. Mesmo que se tratasse de leite gordo e enjoativo das ovelhas da minha avó Marona. Por uma telha!
Levei anos até compreender os inconvenientes deste
mata-bicho.
Quanto ao meu irmão, desde muito cedo que ficou dependente de leite
artificial, passando posteriormente ao de vaca, destemperado com água.
Daí que quando a Palmira foi servir para casa da minha avó incumbiram-na de ir, todas as tardes à Quinta dos Anjos, aviar-se do precioso alimento. Eu acompanhava-a, ou melhor, fazia parte do grupo de clientes.
***
Subíamos ao cabeço dos Anjos, tomávamos o carreiro a que chamam hoje de rua de Santa Catarina. Atravessada a estrada, era só seguir pelo arruamento saibroso da Quinta...
Perguntavam-me quando é que deixava aquele bibe de xadrezinho. Preto e branco, por luto
do meu avô.
Apoiada numa cana, chocolateira de cobre na outra mão, encabeçava a
fila, aos solavancos e gemidos, a ti’ Maria Pequena. Avó do Coquelim, tia-avó
da Florinda… Chega de mais parentescos por agora.
Velha e coxa. Uma chaga incurável numa canela, abrigava-a, no regresso da
quinta, a fazer pausa em casa irmã, a ti’ Júlia Boleeira. Para lhe fazer o penso.
Quando a Palmira deixou de trabalhar em casa da minha avó, eu mantive a ida
diária à Quinta dos Anjos, agora entregue à Maria Pequena. Garrafa dentro de um
saco de retalhos e juízo na cabeça!
Ufff! Nunca mais acabava a volta do leite. Depressa me fartei. Dos
constantes lembretes sobre o meu comportamento, dos passinhos curtos da
velhota, mais da conversa mole na paragem no sítio da ti’ Boleeira.
O casal era mesmo em frente do portão da Quinta dos Anjos. Evito agora
pintá-lo, em verdes, vermelhão do saibro, alvadio da casa…
Sim, e a charca! A charca das mil navegações, embalado pelo coaxar das rãs, enquanto à volta das espadanas me perseguiam monstros…
Sosseguem, eram
apenas cobras de água que eu avistava da margem, contemplativo entre as
estevas. Adiante, para me poupar o coração.
Só mais uma pincelada, desculpem.
Sobre toda a propriedade da Júlia Boleeira, distinto de ambas as margens do Tejo, erguia-se o Pinheiro. Manso, rico de ninhos e pinhões. Gigante de harmonia e majestade, no tronco e na copa. Nunca vi árvore assim entre as da sua espécie. Multissecular, figurava nos mapas. Cheguei a deitar cálculos: quantas crianças seriam necessárias para, de mãos dadas, lhe abraçarmos aquele espesso tronco?
Ai de quem se arriscasse abatê-lo! - dizia-se.
Naquela tarde de Maio, estugávamos o passo, para não sermos apanhados pela
trovoada. Eu queria correr, Maria Pequena ralhava-me, entre rezas a Sam
Jirolme e Santa Barba. Que podia cair, entornar o leite,
cortar-me nos vidros da garrafa. Aquilo eram só trovões! De momento. Íamos
conseguir abrigo no casal, antes da chuvada grossa.
***
À justa! «Agora, que Deus a mande… Santa Barba e Sam Jirolme…»
Na sala, que servia de atelier de costura, estava uma menina desconhecida. A Florinda! Mais velha do que eu. Indiferente aos receios com que a modista, a sua tia Constância, e a avó Júlia escondiam agulhas e tesouras. Não fosse um raio entrar pela casa dentro.
Florinda folheava cadernetas de
cromos.
Sobre a casa caía um dilúvio, relampejava por todo o vale . Ramalhava ameaçador o grande pinheiro.
Devido ao súbito escurecimento, acenderam
dois candeeiros a petróleo, um dos quais foi colocado sobre a mesa onde a
Florinda me começava a identificar os bonecos dos seus livros. Ela já sabia
ler. E eu, aos cinco anos começava a sentir vontade de aprender. Quando?
Esquecido do mau tempo, entrei na primeira caderneta de cromos, A
Branca de Neve. Inédita e doce ansiedade.
Posteriormente, quando a Florinda foi para a escola da Portela, e eu
já me aventurava na leitura e nas visitas sozinho ao casal da avó Boleeira,
pedi-lhe por empréstimo a caderneta da Branca de Neve. Então, ela
avançou outra coleção que, entretanto, concluíra. Alice no País das
Maravilhas.
Aqui está a chave dos meus três magos: dois irmãos Grimm mais o Lewis Carroll. Que disseram eles todos sabemos, o que quiseram dizer com aquelas personagens e peripécias, fica por nossa conta. Ainda hoje procuro ali significados escondidos.
Releitor que revisita o local onde abriu
pela primeira vez os livros.
***
Apagaram os candeeiros, porque reclareava a tarde. Nesse caso, que a Florinda me levasse a ver os cachorrinhos. Sugeriram as adultas.
Ela pegou-me pela
mão e puxou-me para o recanto onde a cadela tinha, horas antes, parido a
ninhada. Tantos!
Mexer-lhes, nem pensar! Aviso de que a bicha estava sôfrega. Rosnadelas, olhos turvos.
Dias depois compreendi que, à exceção de um, sempre o
primeiro a ser abocanhado pela mãe, todos os outros tinham sido afogados. Pelo
criado da avó Boleeira. Na pia dos carneiros e por que não na charca?
***
Era tempo de nos pormos a caminho.
A meio do Cabeço,
ouvi pássaros. Sacudidos dos ninhos pelo vento, piavam impotentes na boca de
dois gatos que em vão espantei, sem conseguir libertar as vítimas.
Como se não tivessem bastado a trovoada e as maldades da rainha madrasta, a
cadela ameaçadora…
Branca e Alice, no alto dos Anjos. Aqui vo-las deixo.
Tudo soçobrou: pessoas, casas, matos… Terraplanaram a charca. Para
construir ali um centro comercial, no ramo dos móveis importados.
Mas o pinheiro? Que lhe fizeram? Quem?
Se me tivesses telefonado, teríamos cumprido a promessa de nos acorrentarmos ao tronco! Estava combinado, camandro!
E o Rebelana fechou-se em copas.
«Então, meu?» , gaguejei-lhe com a faca no peito.
«Não te disse nada. Não havia nada a fazer.
Esquece.»
Tinhas razão, amigo. Esquecer pode ser a chave.
Contudo nunca esqueci. Branca , Alice
e o Pinheiro.
Aqui tens, Florinda.
terça-feira, 10 de maio de 2022
ESCREVIVÊNCIAS 2.14 À unha! De caras
O Marino, disposto a dar uma bem-vinda mãozinha escrevivente, nas estórias da Quinta dos Anjos. Instado pelo Alfredo.
Convicto, este, da minha
completa ignorância, quanto a um pormenor da vida do Joaquim Caetano. Meu
já declarado amigo de infância e tratorista da Quinta.
Só faltava agora sabermos tudo sobre a vida
dos nossos amigos, meu irmão!
E o Alfredo invetivando-me:
«Sabes tu, sabes tu de quem é este castelo?»
Essa não!…Era de outra lenda. Lá para os lados de Barcelos.
Peço desculpa. Em tempo, se corrige:
«Sabes tu, como começou a promoção
a tratorista do Joaquim Caetano?»
Contorci-me. Em branco, menino! Não sei, não vi,
não estava lá.
Nunca, o mano Alfredo deixa sem resposta:
«Ainda bem que lá não estavas, teria sobrado também uma cornada para ti. Conta lá, Marino!»
*
«Muito antes do Braga, que se arruinou nos amanhos da Quinta das Trigosas, esteve lá o João Caldas. Lembram-se?
Rendeiros.
Mas isso já eu aduzi, metendo lavoura
escrita na Texugueira, empoleirando, no valado da Oliveira Santíssima, a
santinha da minha avó Gertrudes. Sem desfazer em mais nenhuma das outras avós
do mundo. A berrar pelo neto.
Só que a tal promoção do Joaquim Caetano
dera-se uns anos antes. O mais certo até, antes de eu ter nascido. Quando?...e o que é que isso importa!
Marino acredita, pela atenção do concílio dos
primos, que a curiosidade rebenta. Estávamos à mesa os netos da avó Otília, do avô António Caréu.
Então foi ele, Marino, com sete/oito anos a ouvir a
gritaria da vizinha Sapata... No sitio do Canto. Aquela nesga de modestas habitações, entre as Trigosas e o Casalinho.
Que levavam ali, enrolado numas sacas, deitado e desmaiado ou morto, sabia-se lá, um rapaz boieiro do Caldas. No lastro de um carro de bois. A caminho do hospital. Nunca mais lá há de chegar, se não vierem os bombeiros.
Entrementes,
alguém teria ido por eles, de bicicleta.
*
Joaquim Caetano. Por azedumes. Com um dos bois da
junta que lhe fora atribuída. O boieiro recorrendo à aguilhada por dá-cá-aquela-palha,
o bicho respondendo tão-só com olhar turvo.
Cada vez mais bistre e sanguíneo. Quem é que
sabia ler o olhar de uma animal que até ali fora a pachorra, a moleza da lama,
a todas as vozes de comando. Sem castigo nem ralhos. Sem desconfianças
de parte a parte. Ao tirar e pôr a canga ou a soga. Atrelado ao charrueco,
à grade, ao lamego, ao carro. A quatro ou de singelo.
À manjedoura nunca o bicho passava sem retribuir cuidados de postura alimentar ou de cardoa, lambendo as mãos ao tratador. Boi e boieiro como irmãos. Salvo seja. Até que… E vá-se lá saber a razão. Assim pode começar uma guerra!
Verão, fim
da sesta. A junta de bois remordia, por desfastio, uns ramos de freixo, pelas
sombras, na frescura das várzeas da Ribeira Grande. Joaquim Caetano amodorrara
um pouco para recobrar forças. Mas,
Ao trabalho! Era preciso voltar a meter os
animais ao carro regressar à Quinta dos Anjos.
Nesse momento. O boieiro teve a certeza: aquele bicho estava a pedi-las!. A coisa tinha de ser tirada a limpo. À unha! De caras!
Contava-se, depois do acidente, que o Caetano,
sem se aperceber da gravidade, mudara o nome do animal. Três anos seguidos, Doirado isto, Doirado aquilo. Companheiros de trabalho, jorrando suor para a
bolsa do mesmo patrão.
Mas quando o animal se firmou em desafio. Na
Ribeira Grande, já está dito. Bateu-lhe as palmas, o boeiro. Fez peito e
saltitou. Eh Boi!
«Eh Mal-capado!».
Duplo e feio
insulto. Tanto atinge o machorro como o emasculado. Ouvido por boi, nem por isso
obriga a perdão ou desconto. Mesmo boi manso, pisado de trabalho. E já
esquecido da pancada do malho, com que o do ferrador lhos moera. Pois é, mas
tudo tem os seus limites.
É preciso chamar os bois pelos nomes, Joaquim
Caetano. E tu devias saber isso desde os tempos de menino, lá em Óbidos. Quando
com os da tua idade tocavam as juntas, para dar aos barcos aquilo que areia da
praia lhes roubava. Movimento. Muito antes de chegares à Quinta dos Anjos.
Este boi não teria trapio nem cornamenta para ti?
Cuidado!
Logo, o bicho se soltou da soga e levantou a cabeça. Ainda te dava uma oportunidade de corrigires. Cerejo, Ramalhete, Doirado, Cabano, Trigueiro, Formoso, Salgado, Castanho … eram nomes de boi. Quem não se lembra? E os bois gostavam de ser chamados pela sua graça. Só que, só que foste longe demais. Repetiste:
Mal-capado!
Corrida breve para acolher o impacto. A tua
última, sem perna desnocada. Vamos … Vai-te a ele. Embarbela-te, homem. Aguenta
o derrote. Torce-lhe a cabeça, caraças!
Foste sacudido. Marrado, pisado… O Marino até garantiu que mordido!
Não será fantasia, relato de rapazola de sete anos há-de ter seu fundo de verdade.
E um remate a preceito: por fim, atirado ao ar!
Caiu o boieiro como uma pedra. Baque!
Tranquilo, o boi regressou aos ramos dos freixos.
Por desfastio.
O resto já se sabe. Hospital, milagre dos médicos
e das irmãzinhas da enfermaria.
Sobretudo, o bom coração da senhora D. Maria Romana. Insistindo para se conseguir a decisão soberana de João Caldas. Manter o Joaquim Caetano ao serviço da Quinta. Mandando-lhe tirar a carta e comprando um trator.
A Nação precisava de trigo. E do suor do povo. Mandava o Chefe.
Olá! O senhor dos Anjos era dele incondicional
*
Tudo isto estava fora do meu conhecimento, Amigos!
Obrigado, Marino e Alfredo. Aqui temos um trabalhinho de equipa.
De facto, tratavam o Joaquim Caetano por Coxo.
segunda-feira, 2 de maio de 2022
ESCREVIVÊNCIAS 2. 13 Trigo!
Trigo, tanto trigo!
Queremos pão!
A grande lavoura. Estava-se ainda no auge dos três ciclos de produção. Trigo, azeite, vinho.
Sustância para o corpo, linimento para a alma.
As carências, da primeira metade do século, ditadas pelas guerras mundiais e pela sanguinária confrontação civil em Espanha, determinaram incentivos à produção.
Particularmente quanto aos cereais panificáveis
Ganâncias e... fomes.
Tanto trigo!
Queremos pão!
Por aqui
nos ficamos, que isto não é requentada doutrina neo-realista.
Nos finais de 40, o lavrador João Caldas trazia de renda a quinta das
Trigosas e o lavrador José Ribeiro Tropa, dono da Granja, amanhava a Quinta da
Besteira.
O empreendimento levava-os a investir fora dos seus domínios.
Produzir! Produzir!
***
Segue ali, o semeador, com as balizas de caniço entaladas debaixo do braço, esquerdo, contra o sementeiro. Compasso a rigor.
Parecia retirada do peito,
aquela mão cheia de promessas. Recuada até os ossos rangerem, avançada de
seguida, aberta e repartidora, em direção ao ombro esquerdo. Distribuindo o
cereal em sucessivas meias luas. Regular. Nem ralo nem basto.
“Abençoada mão que fez este trabalho!” diriam as mondadeiras.
Do mesmo modo, junho fora, as ceifeiras, os gadanheiros. Porque, às vezes, se reconhecia a perfeição, mesmo quando as forças das gentes se esvaíam em suor e dor.
Julho, já com a colheita enceleirada, as debulhadoras dos Anjos e da Granja acudiam à produção dos pequenos e médios agricultores.
“Quem não tem bois, ou antes ou depois” .
Provérbio de conformação de pobres e remediados.
***
Música Velha, Rebelana!
«Tu ‘tás-me a ouvir isto?»
O quê, Rebelana?
A conversa parecia já descarrilar, por efeito de um copo a mais.
Sons vadios. Vadios?
«Sobem do passado…»
Eram os pregões do Có, do Pronto Caleiro, do peleiro, do Rica-Prima…
Chega, Rebelana, apre!
"' pera aí, pá!"
Faltava ainda o homem da enfardadeira!
Qual homem, Rebelas?
"Na 'tás a ouvir, gaita?
***
Às vezes, dava-lhe para comparar o som da corneta do João Macho com a do Francisquinho. Sardinheiros da Azoia, fornecedores da Besteira.
Um alongado
chifre de boi, aventado pelas bochechas de cântaro do João Macho. A par de um
sopro tísico, numa corneticha de metal, espremido pelo Francisquinho.
Mulheres a saírem dos quintais. Comprar para elas e para quem tivera de ir trabalhar mas fizera encomenda e deixara prato e pano. Para que as moscas não viessem logo pôr larvas nas sardinhas ou no chicharro.
Mais do que peixe fresco, a carroça do João Macho trazia novidades.
De frescura garantida,
numa manhã, sem jornais. Nem telefonia. Com um telefone, único e mais próximo,
na dita Quinta dos Anjos.
***
A debulhadora
Na Besteira nunca acontecia nada. Quase nunca, a bem dizer.
«Não é verdade!», contestava-me, pela década de 80, o meu amigo Rebelana, na taberna do Cunha.
Acontecia a chegada das debulhadoras!
Sempre à tardinha, de um dia tórrido.
Quando a polícia de trânsito autorizava, sem que os rastos de ferro das máquinas
estragassem ainda mais o alcatrão fundido pelo sol.
Vinham em primeiro lugar as galeras, puxadas a muares. Carregando bidões de combustível e
lubrificante, correias de transmissão, a balança, rolos de arame, o
cavalete do esticador.
O esticador instalava-se na periferia da eira. Sabendo dos
ventos, do curso do Sol, protegia-se, assim houvesse oliveira a jeito. Passava
todo o dia: estica, enrola uma alheta na extremidade, corre à outra ponta do
cavalete e guilhotina. Arame de ferro, dúctil e oxidado Atilhos de trefilaria
para os fardos de palha.
Aglomerava-se, vindo do cu-de-Judas, o primeiro rapazio, tomando
posição para o resto do desfile. O alarme correra pela Portela. Esperem por mais! Chegava a debulhadora!
O segundo elemento do cortejo era a enfardadeira, puxada
por uma junta de bois.
Tratava-se de uma máquina finalizadora do trabalho: comprimia a palha, aramava os fardos e expulsava-os. Para o chão, se os homens encarregados de os levarem ao ombro não ocorressem a tempo.
Prensado o fardo, quem estava nessas funções dava duas pancadas com o alicate. Aviso duplo, para o carregador e para o homem que alimentava a palha. Pusesse mais um separador de madeira, fronteira de um novo fardo.
O alicate contra um pedaço de folha de charrua. Aço contra
aço.
Rebelana não tinha ali nada, na tasca do Cunha, para reproduzir os sons que lhe brigavam nos ouvidos.
Aquela estridência sobrepunha-se a todos os outros ruídos da eira. E
afastava-se agressiva e monocórdica pelos campos de restolho. Com as revoadas
de palhunça.
Faz lá outra vez, Rebelana!
Se o Rebelana lesse hoje esta relação, já estaria a espingardar. Com razão,
pois pus o pessoal a compactar os fardos, sem ter ainda
instalado a maquinaria principal.
Faltavam debulhadora e fagulheiro. E ainda o trator, que os rebocava na
estrada e accionaria todo o conjunto na eira.
No rabo do desfile, a pé ou empurrando bicicletas, atravancadas com bugigangas, seguiam os trabalhadores.
Quinze, vinte? Um rancho! Mantas e
alforges. Material de refeição. Seira de palma com talher, temperos, côdeas de
pão, rodilhas. Caldeiras fuliginosas, as burras, ou sejam, as
negras hastes de ferro em que as ditas caldeiras seriam suspensas sobre as chamas.
Alguns também levavam frangos. Debicando de eira em eira, engordavam os bichos,
a custo zero, para patuscada, no final da época.
A petizada, embasbacando-se com aquela tropa fandanga, nem dizia em casa para
onde se ausentara. Voltariam, dos mais pequenos aos mais matulões, nos dias
seguintes, à eira, fascinados com tanto avanço de maquinaria.
Calcadoiros, trilhos, uma parelha de éguas
em rodopio, padeja de palhas e moinhas, impropérios contra os ventos, ora
amainados ora em desalinho, eram obra do passado. Embora ainda usadas para as
favas, o grão-de-bico, os chícharos…
Quem é que se vai lembrar do nome de todas as alfaias do trabalho nas eiras,
daqui a cinquenta anos? Daquele seco martelar na relha com o alicate?
Que te poderia eu responder, Rebelana?
Santarém não tem hábitos, cultura, políticas de museologia. Nem orçamento
nem vontade. Já lhe chega ter de armazenar os achados arqueológicos,
sempre que escavam um arruamento.
Afora os azulejos do mercado municipal, muitos deles espelhos do labor
desenrolado ali ao lado, no Campo Sá da Bandeira, o Concelho não honrou
devidamente com um museu etnográfico, o trabalho. Quem lhes produziu riqueza
nos campos, no rio, nas oficinas de artes e ofícios. Salvou-se a
jaqueta do campino e viva o velho. Tanto mais absurdo quanto a cidade se quer,
segundo alguns, conservadora, mas quase necrófila.
Na Portela, onde todos os utensílios de lavoura foram levados pelo caruncho e pelo ferro-velho, Rebelana foi, até aos seus últimos dias, um guardião de sonoridades. Desde a pancada do alicate, cadenciando o rendimento da enfardadeira, ao gorjeio de todo e qualquer passaroco.
Tal como o Mané-Mané,
foi o último assobiador, estrada-a baixo estrada-a cima.
«Tu ‘tás-me a ouvir este som?»
De nada valia retorquir ao Rebelana que eram
coisas do antigamente.
Música velha!
sexta-feira, 29 de abril de 2022
ESCREVIVÊNCIAS 2.12 Arranjei um amigo
Saltei o valado!
Casal dos Labaças. Ou das labaças? Já não importa ir procurar. Sítios que se deliram no meu imaginário. Sítios do nunca mais. Que alívio!
Era por ali a propriedade dos meus avós Maronas, como já disse.
Foi por ali e por lá comecei eu a ser criança. A sentir os limites do espaço e o apelo da debandada....À menor oportunidade.
Uma tarde, antes do casamento, da Ilda Direitinho com o Joaquim Caetano.
O que era aquilo?
Saltei o valado da Texugueira, intrigado pelo ruído do tractor. Caminhei ao longo do rego da charrua, até que o Joaquim Caetano me descobriu, parou e convidou a trepar para a máquina. Dei uma volta, encantadora. Guardo dessa viagem um odor estranho de leiva e combustível . Irrepetível!
De repente, vejo a minha avó Gertrudes, a gesticular, no sítio da Oliveira Santíssima. Do palheiro dos bois, no casal dos meus avós, alguém me vira fazer aquela incursão na Texugueira.
Rapazinho em fuga? Era só o que faltava!
Fui reencaminhado para os limites do terraço. Entre a casa-de-fora e a casa do forno. Que me contentasse com os relinchos, os mugidos, os cheiros dos animais.
Deixá-lo!
Tinha acabado de confirmar um amigo.
O Joaquim Caetano!
***
..
terça-feira, 26 de abril de 2022
ESCREVIVÊNCIAS 2.11 Os Direitinhos
A SEMENTEIRA
Na Quinta dos Anjos. Manhã de Inverno, talvez 1948-49. Frio e nevoeiro.
A Ilda Direitinho, ainda solteira, era , por morte da mãe, Justina, a governanta da casa. Mandou o irmão Fernando levar o almoço ao outro irmão, mais velho, o Mário Olho-de-Vidro, que andava na sementeira do trigo.
Os Direitinhos viviam num quintal colado ao nosso. De muito pequeno, perdido-e-achado, era com eles que me distraía. E se surgia a oportunidade, logo me punha a caminho com aquela boa gente.
Com o Fernando, entrámos na Quinta, para o lado da eira, na folha da Mafarra.
De onde guardei, até hoje, imagens da grande lavoura do Caldas. Aliás do senhor Caldas! Respeitinho era bonito!
O trator, sempre conduzido pelo Joaquim Caetano, várias juntas de bois que gradavam, dois semeadores…
Parecia que a névoa apagava os semeadores, sempre que se afastavam ; para os devolver, nítidos, tempo depois. Quando retomavam a nossa direção e vinham reabastecer o saco sementeiro.
Enquanto eu os não avistava, disse-me o Fernando....
- Chamavam-lhe o Palã. Por ser claro e diverso na conversa. Paleio! -
... que aqueles homens andavam a semear trigo, nas nuvens!
Não me convenceu! Então, chamou-me perto dos bois e mostrou-me o vapor saindo-lhes das narinas. Aquele “fumo”, o nevoeiro e as nuvens eram tudo a mesma coisa, explicou. Bolinhas de água!
Encolhi os ombros, indiferente a tanta sabedoria .
Empurrado pela friagem da manhã aproximei-me de uma fogueira. Alguém pusera pinhas ao calor, para soltar os pinhões. Atraído pelo aroma, tentei forçar a abertura das escamas de uma infrutescência.
Ai! Queimei-me. Pior, fiquei com as mãos manchadas de resina, enegrecida pela poinha negra das sementes. E agora?
Obrigaram-me a retomar o caminho de casa, de braços abertos, para não sujar a roupa.
Foi a Ilda que, com um trapo embebido em petróleo, escorrido da torcida do candeeiro, me fez a primeira limpeza. Incompleta, para poupar.
O petróleo continuava caro e escasso. O candeeiro era um luxo. Acendia-se excecionalmente, naquela casa. Bastava a candeia, aproveitando o azeite das frituras.
De mãos limpas, já podia seguir para casa. Para ouvir ralhete por ter mexido onde não devia.
Como se as crianças fossem estátuas!
O Casamento
A Ilda e o Joaquim Caetano casaram na capela dos Anjos. Fui assistir, a convite da noiva. A minha mãe , fazendo das tripas coração, confiou-me ao Coquelim.
Com o encargo de me trazer de volta logo que a cerimónia acabasse. Que tivéssemos juizinho, sobretudo ao atravessar a estrada, no Alto da Portela. Não era a primeira vez que me chamavam a atenção para o perigo de atropelamento naquela passagem.
Eu andaria pelos cinco anos, o Coquelim teria aí uns dez.
Após a cerimónia, o meu acompanhante esqueceu-se do compromisso. Virou costas e partiu, rumo à Besteira, com um bando de catraios mirones: um Toino Rocha, o Pampo e o Luís Pedro do Pagante , o Toino Bacalhau, o Nicolau da Sapata… Ah! E o Rebelana!
Chegam, por hoje... Malta brava. Sombras, não mais.
No alvoroço de calaceirar, sem convite, o copo-de-água. Sempre haviam de lhes atirar algumas sobras. Uns nacos de pão com carne. umas aparas dos bolos-ferradura, confeitos...
Corriam pela ladeira do Cabeço abaixo. Eu protestava: que não me deixassem para trás! Em vão. Sabiam que não me ia perder Por assim dizer, já estava em terreno da minha família.
Quando a minha mãe me perguntou, se tinha ido dar o beijinho aos noivos, se gostara do que vira, respondi pela positiva. E avancei um pedido de esclarecimento:
«Ó mãe, o que é que o Coquelim disse que os noivos vão fazer esta noite?»
Não fui respondido!!
E ainda ouvi ralhar.